Você trabalha muito, tem uma agenda cheia — e boa parte do que ganha vai para o IR
Se você é médico, dentista, psicólogo ou atua em qualquer outra profissão de saúde como pessoa física, provavelmente já sentiu isso na prática: a tabela do Imposto de Renda consome uma fatia crescente da sua renda conforme você fatura mais. Na alíquota máxima, 27,5% dos seus rendimentos vão direto para o fisco — e ainda sobram INSS e ISS para pagar em cima.
O que muitos profissionais de saúde não sabem é que existe uma alternativa completamente legal: abrir uma empresa — o que o mercado chama de “abrir PJ” (Pessoa Jurídica). Com o CNPJ certo, no regime tributário adequado ao seu perfil, é possível reduzir drasticamente a carga tributária, manter a renda líquida maior a cada mês e ainda ganhar mais credibilidade no mercado.
Neste artigo, você vai entender por que profissionais de saúde pagam tanto IR como pessoa física, como a abertura de PJ muda esse cenário com exemplos numéricos reais, quais são as melhores estruturas jurídicas e regimes tributários para o seu perfil, e o que você precisa fazer para dar esse passo com segurança.
Por que profissionais de saúde pagam tanto IR como pessoa física
Quando você atua como pessoa física — seja atendendo pacientes no consultório, fazendo plantões ou prestando serviços para clínicas e hospitais — seus rendimentos são tributados pela tabela progressiva do IRPF (Imposto de Renda da Pessoa Física). Quanto mais você ganha, maior é a alíquota que incide sobre a sua renda.
As faixas vigentes em 2026 são:
| Base de cálculo mensal | Alíquota | Dedução |
|---|---|---|
| Até R$ 2.428,80 | Isento | — |
| De R$ 2.428,81 até R$ 2.826,65 | 7,5% | R$ 182,16 |
| De R$ 2.826,66 até R$ 3.751,05 | 15% | R$ 394,16 |
| De R$ 3.751,06 até R$ 4.664,68 | 22,5% | R$ 675,49 |
| Acima de R$ 4.664,68 | 27,5% | R$ 908,73 |
A Lei nº 15.270/2025 introduziu uma tabela de redução progressiva que beneficia rendimentos até R$ 7.350/mês. Para quem ganha até R$ 5.000/mês, o imposto cai a zero pela regra de redução. Acima de R$ 7.350/mês, aplica-se a tabela progressiva sem redução.
Na prática, um médico, dentista ou psicólogo com rendimentos mensais acima de R$ 7.350 está sujeito à alíquota máxima de 27,5% sobre a parcela excedente. E além do IR, o profissional autônomo ainda paga:
- INSS como contribuinte individual: alíquota de 20% sobre o salário de contribuição, para garantir benefícios previdenciários
- ISS: cobrado pelo município, geralmente de 2% a 5% sobre os honorários recebidos
- Carnê-Leão: mecanismo pelo qual o autônomo apura e recolhe mensalmente o IRPF sobre os rendimentos recebidos de pessoas físicas
Somando IR (27,5% na faixa máxima), INSS e ISS, é possível que um profissional de saúde com renda mensal acima de R$ 10.000 pague 40% a 45% da sua receita em tributos como pessoa física.
Como a abertura de PJ muda esse cenário
Ao abrir um CNPJ e passar a prestar serviços como pessoa jurídica, o profissional sai da tabela progressiva do IRPF e passa a recolher impostos pelo regime tributário da empresa — que, em muitos casos, resulta em uma carga tributária radicalmente menor.
Psicóloga com faturamento de R$ 10.000/mês
Como pessoa física: IRPF de aproximadamente R$ 1.841, INSS autônomo de R$ 908 e ISS de R$ 300 — total de cerca de R$ 3.050/mês, com renda líquida de R$ 6.950.
Como PJ no Simples Nacional (Anexo III, alíquota de 6%): DAS de R$ 600 e INSS sobre pró-labore mínimo de R$ 300 — total de cerca de R$ 900/mês, com renda líquida de R$ 9.100. Economia mensal estimada: R$ 2.150.
Médico com faturamento de R$ 25.000/mês
Como pessoa física: IRPF de aproximadamente R$ 5.966, INSS de R$ 908 e ISS de R$ 750 — total de cerca de R$ 7.625/mês, com renda líquida de R$ 17.375.
Como PJ no Simples Nacional (Anexo III, alíquota efetiva de ~8,5%): DAS de R$ 2.125 e INSS sobre pró-labore de R$ 300 — total de cerca de R$ 2.425/mês, com renda líquida de R$ 22.575. Economia mensal estimada: R$ 5.150.
Os exemplos são aproximações para ilustrar a diferença entre os regimes. Os valores exatos dependem das deduções do IRPF, do CNAE da empresa, do regime tributário escolhido e da estrutura de pró-labore. Um contador deve calcular o cenário real para cada profissional.
Qual o melhor formato jurídico para profissionais de saúde
SLU — Sociedade Limitada Unipessoal
A SLU é o formato mais comum para profissionais de saúde que trabalham sozinhos. Permite que uma única pessoa abra uma empresa sem precisar de sócios, com a responsabilidade limitada ao capital social — o que protege o patrimônio pessoal em regra. É a opção mais prática e mais recomendada para médicos, dentistas e psicólogos que prestam serviços de forma individual. O registro é feito na Junta Comercial do estado.
Sociedade Simples
A Sociedade Simples é o formato previsto no Código Civil para profissionais liberais que exercem atividades intelectuais e científicas — categorias que incluem médicos, dentistas, psicólogos e fisioterapeutas. Pode ser constituída por um único profissional ou por dois ou mais da mesma área. O registro é feito em Cartório de Registro Civil das Pessoas Jurídicas, não na Junta Comercial.
Sociedade Limitada (LTDA)
A LTDA com dois sócios é uma opção para profissionais que querem constituir a empresa em conjunto com um parceiro. Permite dividir participações societárias, o que pode ser usado estrategicamente para distribuir rendimentos entre sócios. A constituição de sociedade entre cônjuges exige análise do regime de bens do casamento e avaliação jurídica e contábil antes de adotar esse modelo.
Para a maioria dos profissionais de saúde que trabalham individualmente, a SLU é a recomendação mais comum pela simplicidade e proteção patrimonial. A escolha ideal depende da atividade, do CNAE, do município de atuação e deve ser feita com suporte de um contador especializado.
Qual regime tributário é mais indicado
Simples Nacional
O Simples Nacional é o regime mais comum para profissionais de saúde com faturamento mensal de até R$ 30.000 a R$ 40.000. Para esse público, o enquadramento correto depende do CNAE e do Fator R.
A maioria das atividades de saúde no Simples está sujeita ao Fator R — o que significa que a empresa pode ser tributada pelo Anexo III (alíquotas a partir de 6%) ou pelo Anexo V (alíquotas a partir de 15,5%), dependendo do cálculo:
Fator R = (Folha de pagamento + Pró-labore dos últimos 12 meses) ÷ Receita bruta dos últimos 12 meses
Se o Fator R for igual ou superior a 28%, a empresa é tributada pelo Anexo III. Se for inferior, pelo Anexo V. Para profissionais sem funcionários que só têm o próprio pró-labore na folha, é mais difícil atingir 28% — especialmente com faturamentos mais altos.
Referência de alíquotas por faixa de faturamento:
| Faixa | Receita bruta em 12 meses | Alíquota nominal Anexo III | Alíquota nominal Anexo V |
|---|---|---|---|
| 1ª | Até R$ 180 mil | 6,00% | 15,50% |
| 2ª | De R$ 180.001 a R$ 360 mil | 11,20% | 18,00% |
| 3ª | De R$ 360.001 a R$ 720 mil | 13,50% | 19,50% |
| 4ª | De R$ 720.001 a R$ 1,8 mi | 16,00% | 20,50% |
| 5ª | De R$ 1,8 mi a R$ 3,6 mi | 21,00% | 23,00% |
| 6ª | De R$ 3,6 mi a R$ 4,8 mi | 33,00% | 30,50% |
Lucro Presumido
O Lucro Presumido pode ser mais vantajoso quando a empresa está na 4ª, 5ª ou 6ª faixa do Simples (faturamento acima de R$ 720 mil/ano ou R$ 60 mil/mês) — especialmente se estiver no Anexo V. Para profissionais de saúde, a presunção padrão é de 32% do faturamento, com carga efetiva em torno de 13,33% a 16,33%.
A escolha deve ser simulada numericamente pelo contador com os dados reais da empresa.
Como funciona a distribuição de lucros isenta de IR
Uma das maiores vantagens de atuar como PJ na área da saúde é retirar a maior parte da renda mensal como distribuição de lucros — e não como pró-labore.
Pró-labore é o salário do sócio pela sua atuação na empresa. Sobre ele incidem INSS e IRPF (tabela progressiva). Para manter a cobertura do INSS, o sócio precisa se pagar ao menos o salário mínimo como pró-labore.
Distribuição de lucros é a retirada dos resultados positivos da empresa pelos sócios. De acordo com a Lei nº 9.249/1995 e a Lei nº 15.270/2025, a distribuição de lucros é isenta de IR até o limite de R$ 50.000 por mês por empresa. Acima desse limite, incide 10% de IR retido na fonte.
Exemplo concreto de uma dentista com faturamento de R$ 20.000/mês:
- Impostos da empresa (Simples Nacional, Anexo III, ~7%): R$ 1.400
- Pró-labore definido: R$ 1.518 (salário mínimo)
- INSS sobre pró-labore: R$ 182
- Distribuição de lucros: ~R$ 17.000 — isenta de IR
- Total de tributos: ~R$ 1.582/mês
- Renda líquida: ~R$ 18.418
A mesma dentista como pessoa física com R$ 20.000/mês pagaria aproximadamente R$ 4.300 só entre IR, INSS e ISS.
Para que a isenção seja válida, a empresa precisa manter escrituração contábil regular com Balanço Patrimonial assinado pelo contador, estar com todos os tributos federais em dia e respeitar o limite de R$ 50.000/mês por empresa para cada sócio.
O que é preciso para abrir o PJ — passo a passo simplificado
1. Regularizar o registro no Conselho de Classe
Antes de abrir o CNPJ, o profissional precisa ter o registro ativo no conselho correspondente: CRM (médicos), CRO (dentistas), CRP (psicólogos) ou CREFITO (fisioterapeutas). O CNPJ da empresa também precisará de registro no conselho após a abertura.
2. Definir a natureza jurídica
A escolha mais comum é a SLU para quem trabalha sozinho. O contador vai orientar qual formato é mais adequado ao seu perfil.
3. Definir o CNAE correto
O CNAE errado pode levar ao enquadramento tributário incorreto ou ao pagamento de mais impostos. Alguns CNAEs relevantes: médicos (8630-5/01), dentistas (8630-5/04), psicólogos (8650-0/05) e fisioterapeutas (8650-0/01). A definição deve ser feita em conjunto com o contador.
4. Escolher o regime tributário
Com base no faturamento esperado, estrutura de custos e projeção de crescimento, o contador definirá se o Simples Nacional ou o Lucro Presumido é mais vantajoso.
5. Registrar a empresa
SLU e LTDA são registradas na Junta Comercial. Sociedade Simples, no Cartório de Registro Civil das Pessoas Jurídicas.
6. Obter alvarás e licenças municipais
Dependendo da atividade, pode ser necessário alvará da prefeitura, licença da Vigilância Sanitária e do Corpo de Bombeiros.
7. Registrar o CNPJ no Conselho de Classe
Médicos, dentistas e psicólogos precisam registrar a empresa no respectivo Conselho Regional após a abertura.
8. Abrir conta PJ e emitir Nota Fiscal
Com o CNPJ ativo, abra uma conta PJ para separar as finanças pessoais das profissionais e solicite a autorização para emissão de Nota Fiscal de Serviços (NFS-e) na prefeitura.
Erros comuns que profissionais de saúde cometem ao abrir PJ
Escolher o CNAE errado: pode levar ao enquadramento em um Anexo mais caro do Simples Nacional ou à impossibilidade de usar o Fator R.
Não calcular o Fator R mensalmente: o Fator R não é fixo. Ignorar o acompanhamento pode fazer a empresa pagar alíquotas do Anexo V quando poderia estar no Anexo III — uma diferença de R$ 500 a R$ 2.000 a mais por mês.
Misturar finanças pessoais e da empresa: comprometer a escrituração contábil pode gerar problemas na hora de comprovar o lucro para distribuição isenta.
Distribuir lucros sem escrituração contábil: sem Balanço Patrimonial assinado, a distribuição de lucros acima da margem presumida pode ser questionada pelo fisco e tributada como pró-labore.
Não registrar o CNPJ no Conselho de Classe: operar sem esse registro pode gerar problemas com o Conselho e com a emissão de notas fiscais.
Escolher o regime tributário sem simulação: muitos profissionais optam pelo Simples por ser “mais simples” sem verificar se o Lucro Presumido seria mais vantajoso. A diferença pode representar milhares de reais por ano.
Retirar tudo como pró-labore: ao concentrar toda a remuneração no pró-labore, o profissional paga INSS e IRPF sobre o valor total — perdendo a vantagem da distribuição de lucros isenta.
Abrir PJ sem substância real: a relação entre o profissional PJ e a clínica ou hospital contratante deve ter autonomia real na prestação do serviço. Se a Receita Federal identificar vínculos que caracterizem relação de emprego disfarçada, podem ser cobrados todos os encargos trabalhistas retroativamente.
A economia pode chegar a dezenas de milhares de reais por ano
Médicos, dentistas, psicólogos e demais profissionais de saúde que atuam como pessoa física estão, na maioria dos casos, pagando muito mais imposto do que precisariam. A abertura de PJ, com o regime tributário correto e o planejamento de distribuição de lucros bem feito, pode representar uma economia de R$ 2.000 a R$ 5.000 ou mais por mês para profissionais com faturamentos médios da área.
A AML Contabilidade oferece atendimento 100% digital, com contadores que conhecem as particularidades tributárias da área médica — incluindo Fator R, registros nos Conselhos de Classe e as novas regras de tributação de lucros vigentes em 2026. Para profissionais que precisam de endereço comercial para registrar o CNPJ sem locar um espaço físico, a AML oferece sede virtual gratuita para clientes do setor de serviços. E para facilitar a separação das finanças, a AML disponibiliza conta digital PJ gratuita via Cora, sem mensalidade.
Se você ainda não abriu o CNPJ e quer entender quanto pode economizar — ou se já tem PJ e suspeita que pode estar pagando impostos a mais — a AML pode ajudar você a simular os cenários e fazer a escolha certa.